Entrevista: Jim O’Neill

Após criar, em 2001, o conceito BRIC – acrônimo que associava Brasil, Rússia, Índia e China, países em desenvolvimento, com traços culturais, políticos e geográficos distintos, mas com um grau acelerado de crescimento econômico –, o economista Jim O’Neill foi alçado à condição de oráculo sobre os rumos da economia mundial. E provocou um grande impacto no establishment financeiro ao cunhar um termo que seria adotado por todo o mundo como sinônimo de nações em desenvolvimento com baixo risco para investimento, apontando-as como fundamentais para a economia mundial.
Quem entra na sede do banco de investimentos Goldman Sachs Asset Management, em Londres, tem a impressão de estar em vários lugares ao mesmo tempo. Ali se respira simultaneamente, de carona nas variações dos mercados de ações, os ares de Tóquio, Xangai, Hong Kong, Frankfurt, São Paulo e Nova York. Do coração do centro financeiro londrino, O’Neill, chairman do banco especializado em planejamento financeiro e estratégias de investimentos para pessoas físicas e empresas, costuma fazer suas previsões sobre a economia global, sempre com atenção especial aos quatro países que o tornaram reconhecido mundialmente.
Um convite para o tradicional chá da tarde inglês foi o ponto de partida para um animado batepapo com O’Neill, britânico natural de Manchester, fanático por futebol e pelo clube mais popular da cidade inglesa (o Manchester United, presente em inúmeras fotos no escritório do economista). Descontraído e à vontade, ele falou à Petrobras Magazine sobre suas novas apostas para a economia global, as perspectivas para o Brasil e o mercado de energia, sem deixar de lado sua paixão pelos esportes.
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Após a criação do termo BRIC, em 2001, você e sua equipe identificaram outros 11 países com grande potencial de crescimento econômico, chamados “Next Eleven”. Desta vez, sua aposta se concentra em quatro dessas 11 nações: México, Indonésia, Coreia do Sul e Turquia. Por que estes países se destacam frente aos demais?
Jim O'Neill: Identifiquei estes quatro países, ao lado dos BRICs, como nações economicamente fortes o suficiente para não serem mais consideradas emergentes. Hoje, prefiro chamá-las de mercados em crescimento. Muitas similaridades ligam essas oito nações: grandes populações, nível considerável de desenvolvimento, sucesso econômico e seriedade nos negócios, o que as torna bons refúgios para os investidores em busca de liquidez. São essas características que as diferenciam dos demais países emergentes. Todas elas, por exemplo, possuem, individualmente, pelo menos 1% do PIB mundial. Veja, por exemplo, o caso da Coreia do Sul, que possui um dos mais altos índices educacionais e de uso de tecnologia. É quase um insulto considerá-la um país emergente. Ainda assim, todos estes países ainda precisam convencer os investidores a deixarem de tratá-los como tais.
Na década passada, além de criar o termo BRIC, o senhor previu a queda do dólar frente ao euro e a outras importantes moedas internacionais. Antes, no meio dos anos 1990, antecipara a alta do iene nos mercados internacionais. Depois de tantas previsões certeiras, quais serão as próximas apostas em relação à economia mundial?
Jim O'Neill: Minha aposta continua sendo os BRICs e, principalmente, seus consumidores. Se há uma grande história para a próxima década, ela está ligada ao consumo destes países. O certo é que não vivemos mais em um mundo influenciado pelos consumidores norte-americanos. Escutei uma história recentemente que confirma isso: a loja da Louis Vuitton em Paris impôs um limite de compra por conta da grande presença de turistas chineses. Lojas da Madison Avenue, em Londres, estão procurando trabalhadores que falem português fluentemente para atender os visitantes brasileiros. Há algumas semanas estive em South Beach, em Miami (EUA), e fiquei espantado com a grande quantidade de brasileiros. Só se ouvia português em todos os lados... Então, tudo isso prova que estamos entrando em uma nova fase.
Em sua opinião, qual será o papel do Brasil na economia global nos próximos anos?
Jim O'Neill: Em relação ao Brasil, acho que estamos em um ano interessante. Em sua primeira década como um BRIC, o Brasil passou por dificuldades nos primeiros cinco anos e deu a volta por cima a seguir, indo muito bem economicamente. Como investidor, acho que se deve observar e esperar. A explicação é simples: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que em minha opinião foi provavelmente o principal líder político do G-20 na década passada, acaba de deixar o governo. E substituí-lo não é uma tarefa simples. A missão é tão dura quanto suceder Alex Ferguson no cargo de técnico do Manchester United (risos). Mas o Brasil é um país fantástico, abençoado, com bom clima e fontes variadas de energia renovável. Anteriormente, apostava-se na Austrália como um país de futuro, mas o Brasil tem tudo para crescer e se tornar uma potência ainda maior.
Nesse sentido, quais os principais desafios para a nova presidente, Dilma Rousseff?
Jim O'Neill: O maior deles é, aparentemente, o mais simples: manter o sucesso obtido nos últimos anos. O Brasil se tornou um novo país na última década, em particular na tarefa de manter a inflação estabilizada. Certa vez estive em São Paulo para participar de uma conferência com o economista Paulo Lamy e ele me disse que a inflação projetada para aquele ano seria a mesma de quando ele era jovem. Isso é incrível! Deve-se reconhecer que o bom momento atual se deu em parte por conta da gestão do (ex-presidente da República) Fernando Henrique Cardoso e do meu amigo Armínio Fraga (diretor do Banco Central no governo Fernando Henrique), mas os resultados se transformaram em realidade durante o governo Lula. O maior desafio de Dilma, portanto, é garantir que isso continue, já que o Brasil tem um histórico econômico terrível. Outro ponto que merece atenção é o câmbio. Tenho amigos do Rio de Janeiro e de São Paulo que me visitam em Londres e acham que o custo de vida na cidade é baixo. Nenhum cidadão no mundo compartilha dessa opinião. O real está muito fortalecido e isso causa problemas para a indústria brasileira e pode ainda enfraquecer o poder do Banco Central. Ainda assim, o controle da inflação é vital.
Como as recentes descobertas de grandes reservas de petróleo no litoral brasileiro poderão influenciar a economia brasileira?
Jim O'Neill: Sinceramente não sei. À primeira vista parece excitante, mas o Brasil deve ficar atento. As descobertas vão alavancar o País? Pode ser, mas talvez não. Se olharmos os últimos 100 anos, a maioria das economias mundiais bem-sucedidas não tinha suas riquezas atreladas às commodities. Uma das coisas que faço com atenção é acompanhar de perto o desempenho da Petrobras. O que acontecer com a empresa vai ser muito importante (para a economia do Brasil). Acho, falando genericamente, que o governo brasileiro aparenta ser muito sábio ao ajudar a Petrobras com os investimentos, porque, neste mundo complexo, as companhias puramente privadas não vão investir o capital que a Petrobras está investindo. Então isso me parece um movimento inteligente.
E essas descobertas podem aumentar a importância do Brasil na economia global?
Jim O'Neill: Elas já aumentaram. A Petrobras recentemente fez uma emissão de ações e investidores de todo o mundo quiseram um pedaço da empresa. Se não me engano, foi a maior emissão já feita no mundo (foi captado um valor recorde de R$ 120 bilhões). Então, as descobertas já estão de certa forma alterando a posição do Brasil na avaliação dos investidores globais, e também o papel do Brasil na indústria mundial de energia.
Como o senhor avalia que a crise no Oriente Médio vai afetar o setor de energia no curto, médio e longo prazos?
Jim O'Neill: (risos) Estou no mercado há 30 anos e já aprendi que algumas das minhas previsões não se concretizarão. Ao mesmo tempo, tenho um Ph.D. em petróleo, mas concluí que tentar fazer projeções sobre a cotação do barril de petróleo beira a insanidade. Hoje, o que realmente influencia o preço do petróleo nos mercados internacionais é a economia chinesa, e não o que acontece no Oriente Médio. Neste momento, muitos analistas escrevem sobre o assunto com grande confiança, mas considero muito grande a possibilidade de que todos estejam errados. Em teoria, no entanto, em função da estabilidade política brasileira, o cenário é promissor, principalmente no curto e no médio prazo. Um artigo recente no Financial Times escrito por um ex-executivo da British Petroleum (BP) aborda o assunto, argumentando que há muitas reservas em regiões instáveis politicamente, o que favorece o Brasil. No longo prazo, tudo vai depender do sucesso da Petrobras. Além disso, a situação pode mudar no Oriente Médio. Estou ansioso para ver o que vai acontecer no Egito (após grande ebulição política, que culminou com a queda de Hosni Mubarak, em fevereiro, depois de 30 anos no poder, o exército egípcio divulgou que o país realizará eleições parlamentares em setembro). No passado, nunca achei que o Oriente Médio e o Norte da África fossem uma boa aposta econômica, mas, se analisarmos que a região possui uma população de 400 milhões de pessoas, o dobro do Brasil, há um grande potencial inexplorado, com chances de vermos um novo BRIC.
O senhor acredita que a pressão cada vez maior de parte da sociedade por um modelo energético mais sustentável pode provocar grandes mudanças no setor de energia, especialmente no que tange a questões de segurança?
Jim O'Neill: O caso da BP no Golfo do México e toda a repercussão causada são bons exemplos. Há outros locais em que o risco ambiental para a exploração é grande. Reside aí, portanto, o grande desafio do setor. Por isso, acredito que as empresas privadas não são as organizações ideais para resolver o problema energético mundial. E digo isso porque a exploração de novas reservas envolve não somente um grande risco humano, mas também ambiental. Essas companhias deveriam assumir essa responsabilidade? Mais uma vez, acho que se trata de uma boa possibilidade para a Petrobras.
Em se tratando de matrizes energéticas, em que direção o senhor acha que caminhará o setor?
Jim O'Neill: Vamos prestar atenção novamente no plano econômico de cinco anos traçado pela China. O primeiro-ministro Wen Jiabao anunciou meta de crescimento 7% menor para este ano, e a razão disso são questões energéticas e ambientais. Visito a China com frequência e vejo a transformação nas cidades, que permanecem poluídas, mesmo fora das grandes metrópoles. Há, no entanto, um movimento de mudança. Percebo os chineses preocupados. O plano de cinco anos também mostra um grande interesse por energias alternativas. Acho que os mercados de energia eólica, solar e, obviamente, de biocombustíveis têm grande potencial de crescimento nesta década. E o Brasil também pode se beneficiar.
Em sua opinião, dentre estas fontes energéticas, quais possuem mais potencial?
Jim O'Neill: Não sou especialista no assunto, mas acho que todas têm grande potencial. Apesar do retrospecto negativo, a energia nuclear pode ser adequada para alguns países. A hidrelétrica também, como se vê no Brasil. Considero a matriz solar outra boa aposta. A China, por exemplo, investe pesado no setor, construindo grandes usinas perto da Mongólia, bem como no próprio país vizinho. É claro que, hoje, estas fontes energéticas não são baratas, mas a tendência é de que a inovação constante altere este quadro.
Vamos mudar um pouco o assunto e falar um pouco sobre esportes. Londres receberá os Jogos Olímpicos de 2012. O que espera do evento? Qual o legado que a Olimpíada deixará para a cidade?
Jim O'Neill: Antes de tudo, espero sol e tempo bom, porque Londres é conhecida por seu clima ruim (risos). Para ser honesto, acho que competições como as Olimpíadas e as Copas do Mundo deveriam ser realizadas em países emergentes e em crescimento. Talvez entre em uma grande encrenca ao falar isso, mas o legado de uma Olimpíada para uma cidade como Londres é pequeno. Na verdade, não acho que precisamos de um evento como esse, embora a área onde a maior parte das competições será realizada (a zona leste de Londres) precise de revitalização. É claro que esportivamente é positivo, um grande congraçamento dos povos, mas Londres é uma capital mundial, organizada e com praticamente tudo de que seus moradores necessitam.
E o que dizer da próxima Copa do Mundo, que será no Brasil?
Jim O'Neill: Espero que receba um convite para passar as quatro semanas da Copa do Mundo por lá... De maneira geral, as pessoas pensam que sou um expert em Brasil, mas isso não é verdade. Só estive no País seis vezes, sempre entre o Rio de Janeiro e São Paulo. Ainda assim, analisando o legado para a nação e o estágio em que se encontra agora, sinto que a competição é uma ótima oportunidade para o Brasil diminuir seus notórios gargalos de infraestrutura, principal-
mente nas cidades fora do eixo Rio-São Paulo.
Como fanático por futebol, dá para sonhar com uma final entre Brasil e Inglaterra?
Jim O'Neill: (gargalhada) Não, a Inglaterra não tem um bom time. Além disso, se lembrarmos que nas vezes em que as duas seleções se enfrentaram em Copas do Mundo o Brasil se tornou campeão, não teremos a menor chance.
Baixe e ouça a entrevista com Jim O'Neill.
Por: Vinicius Medeiros
Fotos: Miguel A. Fonta










